Templates da Lua

retrato falado

Pimenta Cítrica, sob a falsa identidade de Ana
Regida: A flecha
O que é: Um diário dramático e floreado sobre o dia-a-dia maçante de uma garota comum (ou não) cheio de palavras difíceis, metáforas e neologismos para acobertar a falta de conteúdo.
Por que é: Não existem justificativas ou limites para os delírios de mentes jovens, deturpadas e sedentas de aventuras.

cada caminho é uma escolha

se você prefere o literal ao subjetivo
se você vive de fotografias e não de letras
se você quer ir mais fundo na minha imaginação



o que passou passou


de inspiração em inspiração

Templates da Lua - templates para blogs
Essa página é hospedada no Blogger. A sua não é?

Arquivos


Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

Carpete, trovão e um cobertor

Eu não vou te dizer que eu sei o que eu quero. Porque eu sei mais ou menos. Porque eu nem chego a me conhecer o suficiente para te dar certeza de como eu vou agir.

Eu não vou te dizer que sou uma boa menina. Porque eu sei que eu não sou. E por mais que eu tente ficar quieta, no meu canto, sempre acabo atrevessando o caminho de alguém.

Eu também não vou te dizer que eu sou má. Porque eu sei que eu não sou. Eu tenho plena e total capacidade de ser leal. E de me entregar de verdade, sem bote salva-vidas.

Eu entendo o meu cinismo. Eu entendo até porque eu sou assim tão fechada. Mas eu não quero demais. Só quero mais umas vinte das suas onomatopéias para ir abrindo as minhas fechaduras.

Gosto de estar sozinha. Com meus pensamentos, meus livros, meu cobertor, numa cama confortável com a chuva no vidro da janela e uma mente que viaja por todos os cantos do mundo.

Mas eu também gosto de usar os meus cinco sentidos ao máximo pra explorar alguém o sufiente, até a última gota.

***

Eu queria ser um lobo. Arreganhar meus caninos e correr pela neve, com a minha matilha. Sem a minha matilha. Correr pela neve pronta pra estraçalhar qualquer coisa que me desse vontade. Sentir os cheiros de tudo, conhecer tudo pelo faro, rosnar, ganir, morder.
Eu acho que tenho um lobo. Por dentro. Que me devora os cantinhos. Que abocanha meu coração e me faz esganiçar quando eu grito.
Eu grito muito.
É que eu grito numa língua que ninguém escuta.

***

Diálogo Expositivo


Estava quente naquele quarto. Quente quase insuportável, aquele mormaço que entra pelo nariz e condensa tudo por dentro, as paredes encardidas e a luz do sol entrando pelas cortinas. Parecia um quarto de filme, daqueles filmes em que o mocinho americano está perdido em alguma cidadezinha da Colômbia e está curando a própria ferida de tiro-

Ela estava deitada de bruços, o corpo todo marcado, as unhas lascadas, o cabelo bagunçado fazendo um leque no travesseiro.

- Você já viu o jeito que o cara resolveu essa parada na sua tatuagem?

- Hm?


O isqueiro raspou na pele dela - quase queimando.

- Legal. Olha depois.

- Ta muito tarde já?

- Eu preciso ir pra casa.

- Eu também.

- Todas as mulheres deveriam usar calcinha e sutiã assim, combinando. Fica bonito.

- É, estamos vivas apenas para o seu prazer visual.

Ele virou os olhos. Ela também.

- Imagina se eu tivesse uma doença contagiosa. Uma que passasse pela pele assim. Como aquela febre espanhola.

- Não era gripe espanhola?

- Foda-se, você me entendeu.

Ela estava suada. Queria sair daquele quarto e cair numa cidadezinha da Colômbia, ser raptada por um bandido com uma jaqueta de couro, que a enfiaria num carro antigo, a amordaçaria e a prendesse num cativeiro sujo no meio da amazônia.

- Estou com muita preguiça.

- Sério, que horas são?

E aí o bandido a trataria mal no começo, mas no fundo ele seria só um incompreendido e os dois se apaixonariam perdidamente e iram fugir juntos num carro furreca até o fim do mundo--

- Sei lá, como é que eu vou saber?

- Eu preciso me vestir.

Talvez seria melhor se fosse uma cidade fantasma. Se ela saísse e não tivesse mais ninguém - todo mundo tivesse sido morto pela porra da febre espanhola, vai saber, e ela ia andar sozinha pela cidade inteira, entrar em todos os prédios, todas as mansões, acabar com todo o vinho caro de cada uma delas e morrer de coma alcóolico em alguma cama king size em lençóis de seda-

Ela rolou na cama. Estava cheia de sono e precisava de um banho.

- Queria ser teletransportada pra casa agora.

A voz dela estava rouca e repetiu umas trezentas vezes na cabeça dela.

Ela queria sair daquele quarto e cair no céu; andar de nuvem em nuvem sozinha com o vento no rosto - talvez porque ela odiava o vento. Queria que o mundo inteiro coubesse em duzentos minutos de arquivo em vídeo comprimido com o codec certo para rodar em qualquer lugar. Um filme em que ela fosse a protagonista e que o clímax durasse os dois últimos atos.

- Qual é o nome daquele filme que o clímax dura quarenta minutos mesmo?

- Hã? Que filme? Eu não sei.

Ela se levantou. Ele também. Os dois saíram do quarto. Ela caiu num largo qualquer, que já conhecia e tinha que ir pra casa, fazer o mesmo caminho, nos mesmos ônibus.

Ela não foi.


insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 4:01 AM

Terça-feira, Janeiro 03, 2012

Sobre alguém que eu amo

Ela gosta mesmo é das idéias
Das boas idéias, independentemente de onde venham
Sem distinção entre capitalismo e comunismo, judaísmo e islamismo, empreendedorismo e naturalismo
Ela é capaz de admirar qualquer ismo que seja
Com certa ingenuidade que até me faz inveja
Porque ela tem muita fé na humanidade
E vive à margem das coisas
Porque já veio, viu e venceu
Já cruzou todas as fronteiras
E já não importam mais as convenções do dia-a-dia
Enfrenta o mundo sozinha, de peito aberto
Mas tem pavor de baratinhas
É mãe-leoa às vezes,
Mas não se pode negar que é diferente
De todas as outras
Porque é Mulher com M maísculo
De fibra e dignidade inabaláveis
Do jeito que um dia
Eu quero chegar a ser

***

Beautiful Dead End


Ir de bicicleta até o fim do mundo
O pôr-do-sol é cor-de-rosa

Eu queria engarrafar todos os cheiros desse lugar pra levar comigo
O vento gelado que corta minhas bochechas
Enquanto a tarde faz silêncio
E ele sopra a meu favor
E eu sinto saudades
De um tempo que ainda não passou
Nunca estive tão livre
Nunca estive tão forte
Bonito mesmo é viver de dentro pra fora
Aí sim, é lindo de doer
Aí sim,
Tudo tem sentido

***

Fogos de Artifício


Qualquer coisa
Álcool
Imaginação
Livre demais para ser elaborada
Longe.
Longe demais.
Longe o suficiente.
Para não desperdiçar nem mais um minuto.
E ir, ser, ter coragem.

***

Mar Branco

Frio, silêncio, neve.
Fumaça, guitarra.
-Você deve ter muito orgulho de si mesma, garotinha.

***

Cativeiro

Não me mande de volta em trinta dias. Nem sessenta. Nem noventa.
(Nem qualquer tempo que seja antes do suficiente.

***

Pra ser sincera,

eu nunca quis passar pela vida das pessoas sem causar estrago. Eu nunca quis ser só mais uma companhia amena pra ninguém. Mesmo porque eu sei que qualquer um só é capaz de se aproximar de mim quando está cheio de rebeldia. Eu quero marcar quem chega perto de mim, pra sempre. Eu não preciso ser a eleita, a escolhida, eu nunca vou ser. Mas eu sou um rombo no passado de quem se atreveu ficar por perto. Porque eu quero te fincar minhas garras por dentro pra arranhar e as cicatrizes nunca mais saírem. Vou deixar minha marca na sua alma. Vou te chacoalhar por dentro, como um ferro em brasa, incandescente, abrindo sulcos na sua pele pra fazer uma tatuagem à fogo que vai te mudar pra sempre.

***

Poética da Ilusão

Estou te admirando de longe. Estou admirando sua coragem. Estou te querendo em silêncio. Mas é bom esperar. Porque o nosso ritmo não tem que ter nada a ver com mais ninguém. Aliás, nada disso tem a ver com mais ninguém.
Toda essa poesia, ela é só minha e sua.
insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 10:15 PM

Sábado, Dezembro 10, 2011

Ilha

Vem com seu barquinho que você chega.


***

Você quer me enlouquecer? Eu sei que é exatamente isso, e sabe que está funcionando. Eu já nem tenho mais idade pra isso. Eu quero exatamente as nossas conversas madrugada adentro, eu quero os seus abraços (eu sumo neles, eu juro), eu quero você aqui, eu nem sei como. Eu quero. Eu quero você. E está cada vez mais difícil porque você sabe como é essa solidão toda e eu quero toda essa poética, eu não posso fazer nada a não ser fazer birra e dizer eu quero eu quero eu te quero como há muito tempo eu não quero ninguém, e eu to sozinha é por isso, porque eu to cheia de gente e eu quero uma só, que eu só sossego quando você está por perto, eu quero essa sua voz doce no pé do meu ouvido e esse seu carinho e eu sei, eu entendo as implicações x, y, z, mas vem e dessa vez não foge mais porque eu sou de verdade e eu sei que você também é. Eu vou ficar louca. Acho que já estou. Veio em péssima hora. Mas é inevitável. A culpa é toda sua. Não me prende, não me controla, não me faz nada além daquela única coisa que a gente sabe que importa. Foda-se todas essas idiotices que existem, as infantilidades, tudo o mais, eu conheço você, conheço esse seu mar de mel e sei que no fundo é inegável o que acontece, então fica, não vai embora mais, que eu só penso nisso faz dias. Eu estou ficando louca. Você está me consumindo, da maneira mais deliciosa. Me acorda de novo, me toca de verdade, eu cansei de brincar de pique-esconde com todo mundo.

(Você me entende.)
E eu não fecho.

insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 12:14 AM

Sexta-feira, Dezembro 09, 2011

Mar Morto


O seu oceano, é inteirinho de morte.
Eu toquei as águas escuras com as pontinhas dos pés, e resolvi mergulhar. Descer, engolir água, me afogar em você. Fui além dos seus bancos de areia, seu assoalho oceânico. Fui tão fundo até a sua pressão estourar meus tímpanos, fui desafiar minha resistência nesse teu fundo de mar.
Você é abissal.
Seu oceano é inteiro amargo.
Metros e metros cúbicos de azul-escuro, manchado de petróleo, água gelada, e nenhum peixinho.
E eu, para as suas ondas me engolirem. E engoliram.
Mas eu volto, porque sempre gostei mesmo é de uma boa aventura, de estar perto da morte, de mergulhar sem tanque de óxigênio sem nada e voltar quase ilesa.
Quase.

insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 7:27 PM

Juízo?

Não tenho, nunca tive e não vou começar a ter agora só porque você quer.

insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 7:25 PM

Quarta-feira, Dezembro 07, 2011

Inesperadamente, o melhor

Eu poderia dizer muitas coisas, já que adoro falar de mim. Mas descobri que de repente as pessoas me conhecem muito mais do que imagino. E por isso, no meu dia, no meu blog, vou deixar outras pessoas entrarem (porque elas são importantes pra mim, importantes demais):




amanhã, se te vir, direi coisas bonitas. mas você sabe que tem coisas que ficam melhor nas letras do que na boca - e vice-versa.
a começar, eu te desejo muito. muito de amor, de sexo e de revolução - e assim te desejo material pra conversa que eu sei que você gosta é de falar de amor, sexo e revolução.
te desejo a vida complicada que eu sei que você quer ter - não me engane, você gosta - e muita coisa pra chamar de sua, seu, não-sua e saia-do-meu-pé-sua-vaca-asquerosa.
te desejo cream cheese.
te desejo geléia, meia arrastão e suspensórios.
te desejo uma temporada nova com um começo incrível no exterior.
e é isso, te desejo o bem
parabéns (:





De resto, tenho a dizer que: Hoje eu tenho no lugar do coração uma garrafa de champanhe, dos mais caros. E ela está prestes a estourar e borbulhar meu corpo inteiro.
insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 9:16 PM

Domingo, Dezembro 04, 2011

Sorte.

Sorte de estar viva.
Sorte de ter os amigos que eu tenho.
Sorte de ser finalmente querida.
Sorte de ter quem me ame.
Sorte de poder realizar meus sonhos.
Sorte de tanta coisa.
Parece até demais para uma pessoa só.

***

Um brinde a todas nós, mulheres contemporâneas, que carregamos todo esse zeitgeist nas costas, nas unhas. Um brinde a nós com nossas meias pretas rasgadas, no chão com uma dose de vodka vagabunda e um cinzeiro transbordando e esmalte lascado nas unhas compridas, maquiagem borrada, todo o glamour decadente que a solidão da juventude é capaz de nos fornecer.
Um brinde à batata frita cheia de gordura, ao foda-se aos jantares caros, os sapatos de salto e vamos todas juntas sermos criaturas da noite, lindíssimas e alcóolatras e ninfomaníacas e insatisfeitas cheias de humor negro e cheias de politicamente incorreto, levantem os copos de plástico e brindem comigo, pelo preço que pagamos e estamos dispostas a pagar, com sangue, com toda a exposição e toda a solidão.
insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 10:00 PM

Manifesto pelos cerebrados

Eu nunca
Vou ser dessas pessoas que falam pelo coletivo
Eu nunca
Vou vomitar tudo que eu ouvir sem mastigar
Eu nunca
Vou lutar por algo que eu não acredito
Eu nunca
Vou me render por uma causa que não é minha
Nunca, nunca, nunca, um milhão de vezes
Vou repetir o quanto for necessário
Que esse tipo de utopia é burrice
No unissono, eu quero a minha voz
Eu quero cada uma das milhares
Bem alta e clara
Que é pra gritar junto
Mas não é pra gritar no mesmo tom

(E já que estamos todos em comum acordo, podem também pegar as suas tralhas e irem me fazer de idiota em outro canto)

***

Ei, psiu, garotinha! Já é dezembro.

Chuva torrencial, dessas de alagar a cidade inteira, pingos do tamanho de nozes, os sapatos e as barras da calça encharcados. Tempestade de verão e daí eu me lembro porque essa é a minha época preferida do ano, porque eu gosto tanto da possibilidade de me tornar uma nova pessoa, uma nova chance, um ano inteiro novinho. Já é tempestade todo dia, já é hora de perceber que sim, tudo mudou e se há um ano atrás essa mesma chuva foi uma cortina de sonho, agora ela é minha que dói e eu só quero isso, quero minha coleção de dezembros chuvosos. Que é sol de rachar o dia todo, ombros ardendo e uma tromba d'água de paralisar a minha cidade (ela é minha agora - ou quem sabe sempre foi) exatamente como eu sou, como eu sou um dia de verão, de calor escaldante e dilúvio, e é essa a minha época do ano e ela é incrível, sempre é. Ela é incrível com a minha ansiedade infantil por presentes e festinhas, com minhas escapadas pra ensopar o uniforme ouvindo música na chuva, que é pra me acabar de beijar o então amor da minha vida no meio da poça, que é pra estar quietinha de guarda-chuva com bloquinhos de realização completa. É só meu, é tudo tão só meu e agora é assim mais do que nunca e não é solitário, é lindo como os fogos de artifício da virada do ano; esperei onze meses para quando eu posso deitar na grama e afogar na chuva quente. Eu não poderia ter escolhido uma época melhor pra nascer (retiro o que disse antes!); me reinventar justamente quando tudo acaba pra começar de novo. Vem chuva, vem dia sete, vem avião, vem ano novo, venham todos cheios de pressa, que eu estou louca pra inundar o chão inteiro com tudo mais que eu tenho pra viver.

***

Preste atenção, querida... (Eu vim te desejar feliz aniversário)

Como se fosse simples, como se não doesse, como se fosse natural, o tempo passa. E de repente você percebe que já já você vai estar olhando pra trás e pensando que porra eu fiz da vida que me deram. Como se fosse bondade, você vai se lembrar só do que poderia ter feito diferente, sem se lembrar dos motivos para não ter feito. Porque é o agora que determina o depois; mas ele já não vai fazer diferença no futuro.
Sem eu nem saber direito como, eu estou aqui. Tenho mais anos do que gostaria, umas amarguras chatas e uma força que me compele e me consome. Do what it takes to survive, ‘cause I’m still here. Com pompa e circunstância. Cheia de sonhos, cheia de planos, cheia de frustrações.
Sem nem ter percebido, de repente eu sou cheia de bagagem. Já passei por várias histórias e coleciono todas na manga. Sem nem saber quando, de repente eu ando na rua e não olho mais para o chão. Eu nem mesmo estou perdida em divagações poéticas sobre futuros bobos e calcados em geléia.
Eu não vou saber te dizer como, quando, por que, mas de repente, eu sou adulta, eu sou uma mulher feita, assim, do alto dos meus vinte e poucos e de todas as pessoas queridas que eu nunca vou abandonar do alto desse meu controle descontrolado das pequenices que me fazem e o mundo já não é mais um moinho que está prontinho pra me triturar; ele agora é uma roda-gigante, meio capenga, meio enferrujada, com aquelas gaiolinhas que rangem e dá medo pra caralho mas quando você chega lá em cima você vê a cidade toda e vale à pena. (Eu vivo por isso, pelos momentos em que minha roda-gigante chega lá em cima).
E eu escrevo isso porque quando eu olhar para trás e me sentir vazia, quando eu estiver sozinha na vida meio mais ou menos que o destino preparou pra mim eu vou precisar me lembrar que a roda-gigante só vai aumentar o diâmetro e vai demorar muito tempo para os ciclos se completarem. Só que quando eu chegar lá em cima não vou ver mais a cidade inteira; vou ver a galáxia inteira (e ela vai ser só minha).
insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 9:59 PM


Pneus no asfalto nessa tarde de sábado. Corre, corre, corre, vento, óculos escuros, cheiro de gasolina e Garbage no rádio, estourando a caixinha de abelha por marginais e avenidas, pontes e viadutos, volante no meio dos olhos, os ponteiros do painel fincado neles, cinza demais para uma pessoa só. Três maços de cigarro no banco carona e um tanque infinitamente cheio, que é pra eu atravessar a megalópole e achar um lugar onde o céu e o chão se misturam.

***

Jornada dupla não é nada

- Coisa bonita hein? Todo um dia um vernissage.
- Toda noite.
- Com a nata intelectual e artística para discutir os rumos metafísicos da condição humana.
- Não existe isso de "rumos metafísicos".
- Pra ouvir Portishead tomando cházinho tailandês no seu sofá de chenile coral. Que new age.
- Deveras.
- Tipo mulher balzaquiana geração prozac.
- Quase balzaquiana.
- Indo a museus e saraus de poesia; feminista praticante.
- Exato.
- Mulher independente, bem sucedida, mal-amada, vivendo com gatos numa parte deprimente de uma metrópole e usando tamanquinhos de couro cru.
- Não é cru.
- Vegetariana quase vegan, cinéfila declarada, solitária de carteirinha.
- Mas e quem não é, hoje em dia?
- Qual das três coisas?
- As três.
- E ainda assim, toda noite um vernissage.
- Toda noite.
insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 9:57 PM

Sábado, Novembro 26, 2011

Eu Hein

Mas que coisa
Gente mais maluca
Que quer jogar na minha cara coisas que eu nem entendo
Que quer tacar fogo em barril de pólvora só pra ver se a explosão é bonitinha
Que quer me ofender como se eu fosse uma pessoa ruim
Que pena
Justo quando eu estava tentando me aproximar
Quanto mais rápido você entener
Que as pessoas não vão atender suas expectativas
Melhor pra você.
Eu faço o que eu tenho que fazer
E poderia ter descido muito mais baixo
Te golpeado onde mais dói (como você fez comigo)
As armas estavam todas aqui, você me deu cada uma delas
E ainda vem me dizer que eu sou agressiva?
Você não consegue nem mesmo perceber
Que todo mundo faz esforço
Pra ficar do seu lado também

insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 3:35 PM

Quarta-feira, Novembro 23, 2011

Menina Farol

Pra você, tudo isso sempre foi muito simples, muito trivial. Todas as portas sempre se abriram, você foi sempre a mais cobiçada, todas as cabeças se viraram para você quando você entrou. Você frequentou as melhores festas, teve a vida mais divertida, teve todos aos seus pés, todas as vantagens que uma estética privilegiada pode oferecer. Você não teve que lidar com complexo de feiúra adolescente, não perdeu seu amor dos treze anos para a garota mais bonita da turma, não sonhou em fazer plástica para diminuir o nariz, a barriga, o pé, aumentar o peito, a boca, o cabelo. Você nunca nem mesmo teve que buscar ser interessante por outros meios que não sua beleza e gostosura inigualáveis. Você não teve medo de não ser aceita, nem desejou ter qualquer vida social que não estivesse dentro de uma tela. Pra você, tudo é uma chuva de pérolas, champagne e confete. E você ainda vem dizer que me entende, que me conhecia antes, que sabe como eu me sinto?
insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 10:01 PM

Em Pratos Limpos

Ah, essa sua burocracia
Esses seus termos difíceis
Essa sua maravilhosa retórica com argumentos muito bem fundados na hipopotomonstrosesquipedaliofobia, inconstitucionalissimamente
Pra se esconder
Com pilares fracos como palitinhos de fósforo (que eu quebraria com um chute)
Você é raso
Como uma piscina de bolinhas
Muito embora, antes, pelo contrário
Faça de tudo pra acreditar que não
Quando na verdade, o que te falta
É coragem para assumir o que você quer
E eu por tanto tempo acreditando que você era meu igual
Quando você tem o defeito mais crasso que um ser humano pode ter
Você não passa de
(É a única coisa que você é)
Um covarde.


***

Âncora

Mulher ao mar
Não acudam
Que bobagem sua acreditar
Nessas histórias de proximidade não-próxima
Eu que já fui e já voltei
Te garanto que você está só tentando se vendar
Com papel machê

***

Jogatina

Ah meu amor
Nesse seu jogo
Eu conheço todos os truques
Eu sou a mesa

***

Um Dia

Vinho tinto e massa na varanda
Ferro fundido e mormaço noturno
Unhas escuras
Solidão aprazível
O estalar de uma língua estrangeira
Sozinha e tão completa
No ar do mediterrâneo
Pra comer, respirar, beber arte
A Primavera
A Ponte Velha
A ilha que uma mulher longe de casa é capaz de se tornar
Cercada de cores e histórias
Não importa muito quando
Sendo logo
Tudo bem, quando der
Mas eu vou
(Então espera, minha próxima casa, que eu chego)
insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 10:00 PM

Sexta-feira, Novembro 18, 2011

Chega.
Eu quero sair da casca
Já não tenho mais tempo, nem idade, nem vontade
Pra esses medos
Eu quero colocar na cara uma mulher formada
Chega. Não vou mais me esconder atrás de uma máscara estúpida
Quero mostrar tudo que eu quero, que eu desejo e tenho medo
Porque não cabe medo para alguém que já sente tanta dor
Porque não faz mais sentido essa fantasia de menina ingênua
Eu quero, daqui pra frente
Expor toda a minha torridez
Eu acho que (finalmente) estou cansando de ser criança
Porque ser adulta é mais do que ser uma moça-bem-resolvida-dona-de-si-que-paga-os-impostos-e-administra-a-própria-vida
É existir de uma outra maneira
Eu quero sair dessa fantasia de garotinha intocada
Eu quero parar com o faz-de-conta de ser de todo mundo

E sentir
De dentro pra fora
Eu vou desabrochar
Porque tudo isso é muito pouco (não me serve)
Porque não quero me aproximar de ninguém para reproduzir receitas prontas
Cansei de brincar de casinha
O que eu quero é que todos os meus anos me coloquem numa plataforma
Para eu alcançar outro patamar
Onde todos são o que eu espero de qualquer pessoa completa (e nunca encontrei nenhuma)
E eu vou estar de pé, batom vermelho, nariz em pé, plena.

***

Angústia

Já não tenho mais como
Me desfazer pra me refazer desse jeito
Nessa altura do campeonato
Tudo isso dói demais.


insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 12:24 AM

Quarta-feira, Novembro 16, 2011

Bem me quer, Mal me quer

Mais um dia disso e minha sanidade vai descer o último degrau, fechar a porta e ir embora de vez.


insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 10:46 PM

Terça-feira, Novembro 08, 2011

"everyone looks dangerous
and no one keeps their promises
and I am always running"



A noite que vive dentro de mim
É como um véu
É suficiente para abrigar dois
Eu sou o tipo da mulher que não presta
Eu quero existir nos seus braços
Como uma qualquer, uma amante barata
Eu quero te esconder por dentro
Eu faço mais sentido quando você derrete meus pensamentos

Não demora, eu quero, agora, que é como se você fosse uma lâmina para me lapidar e jogar fora os pedacinhos de dor e me machucar me cortar me deformar, eu quero, eu quero, eu preciso, como um alcóolatra precisa de um gole, como um viciado precisa de um tiro. Eu quero essa anestesia momentânea, esse calmante para minhas dúvidas, me vira do avesso, me faz sangrar sangue suor estrelas qualquer coisa seu nome pra eu me desfazer na sua carne, na sua pele, porque dói demais e é tão bom porque é só doendo que não dó mais, pra você ter o meu coração nas mãos e esmagá-lo pra ele estourar, aquele sopro de vida que bate, bate, bate, arrebenta e eu sinto que o meu corpo é uma folha de papel amassada, minha mente finalmente fica quieta e eu só sinto, como eu deveria ser, obedecendo aos instintos que me dominam e aos quais eu quero me render, então não vai embora, não pára, que eu quero mais mais mais mais até eu te sugar pra dentro de mim e vamos estar nós dois perdidos na minha escuridão absoluta onde só existe desejo e dor, quando tudo se acaba no instante em que sentir se torna insuportável e só tem morte em cada poro e não dói mais.

(vem aqui me abrir como se eu fosse uma noz)


insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 12:59 AM

Domingo, Novembro 06, 2011

Nostalgia

Minha vida só faz sentido quando eu olho pra trás
E tento enxergar todas as escolhas que me fizeram ser quem sou
Ser nostálgica não é opção; é sobrevivência
Porque em algum momento eu decidi rejeitar
O caminho que estava traçado pra mim
E tentar seguir um outro, mais difícil, mas só meu
E isso faz toda a diferença
Porque a escolha foi minha
Eu não posso parar de tentar entender a minha própria história
Eu não posso parar, porque é olhando pra trás que o presente faz sentido
Eu não mudaria absolutamente nada
Eu não faria nada diferente
Não existe sensação melhor no mundo
Do que estar exatamente onde você deveria estar
Me dá vontade de chorar
Porque eu consegui dar sentido à minha vida
E ninguém nunca vai tirar de mim
O meu murinho feito de memórias
Que me constitui
Porque eu sei, eu não tenho dúvidas
(Depois de tanto tempo, depois de tanto estar no lugar errado)
Eu estou ao lado das pessoas certas
Eu estou sendo quem eu quero ser
Eu estou exatamente
Onde eu deveria estar



insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 7:13 PM

Sexta-feira, Novembro 04, 2011

Eu estou virando um caramujo

Está tudo tão d i s t a n t e . . .
Os ecos estão esparsos
Não tenho tempo pra ouvir o que vem de fora
Não tenho olhos para os contornos da realidade
Estou me fechando como uma concha
Uma ostra
Porque eu tenho um monte de pérolas por dentro
Um universo inteiro
E eu sinto e vejo
Num estreito no qual meu coração se espreme
E dói da forma mais bonita
Tenho galáxias e fogos de artifícios explodindo no céu da boca
E meus olhos estão enxergando em
A
Q
U
A
R
E
L
A
Como se o mundo fosse um Boticelli
Os ecos grotescos
Não tenho mais tempo para ver, nem escutar
Não tenho mais vontade de adorar, nem de odiar
É só um espaço abafado
Estou afundando em mim para me afogar nos meus fluidos
Nos meus cantinhos
E eu não quero nada além
Da incrível maravilha de se existir
Como uma engrenagem que faz barulhinhos quando se move
Da incrível capacidade de transcender
Gênero, espaço, bagagem
E ser
Levitar
Adentrar
A profunda complexidade de um universo inteiro em expansão
Que se cria sozinho
Que é meu
(E tudo que está aqui fora
É só o que os meus tentáculos estrelados
Alcançam para degustar)
Por dentro do meu universo negro
Minhas galáxias, meus buracos negros
Meus meteoros e minhas supernovas
Eu posso sentir e projetar
Como um raio laser
Varrendo o mundo
De dentro pra fora
Uma ostra
Cheia de pérolas
Uma ostra
Guardando o universo inteiro
Vou me trancar em mim
Sem remorsos
E ficar pertinho das minhas pecinhas

Eu estou realmente
Cada vez mais próxima
Da existência
h.e.r.m.é.t.i.c.a


insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 1:35 AM

Terça-feira, Novembro 01, 2011

Ao Homem da Minha Vida

Ele é namorado a moda antiga, daqueles de namorinho de portão, de beijo na mão, de rosa atrás da orelha, das pequenices e gentilezas de outrora.
Eu não provei a ferroada do seu ciúme, mas sei que ela é letal. Eu não provei a sua fúria, mas sei que ela é possível.
Provei sim da sua sede de aventuras, dos seus abraços doces, da sua lealdade incontestável.


Já dançamos em pracinhas, nos entupimos de caramelos, invadimos cemitérios, corremos da polícia, fomos no rotor na mesma divisória, dormimos abraçados, viramos um ano embrigadados e outro em uma roda gigante, já choramos juntos, rimos juntos, fizemos tantos planos (aqueles nas tardes preguiçosas na praia, aquele eufórico no meio da boate), já andamos incontáveis horas e é tudo tão pacato, tão natural que eu me assusto ao abrir os olhos e perceber que aquele menino doce, que me levava para comer caramelos já é um homem, com barba casa e profissão.

Vai ser pra sempre meu namorado a moda antiga.
Vai estar pra sempre dentro de mim(apesar do tempo, apesar da distância).

(De presente, será que não dá pra gente voltar no tempo e ter só mais um dia daqueles nossos?)


insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 2:13 AM

Segunda-feira, Outubro 31, 2011

Foi uma honra

(Não, é sério. Foi mesmo.)


insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 7:11 PM

Segunda-feira, Outubro 24, 2011

Confia em mim
Como você nunca confiou em ninguém na vida
Porque eu posso
Porque eu quero
Porque a recíproca é verdadeira


(E se assim for,
Eu te prometo que dessa vez
Eu nem quero nada em troca)


insanidade em palavras na inteira responsabilidade de pimenta cítrica às 1:55 AM